segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Eleições do PT consagram a volta dos que não foram

O PT foi às urnas neste domingo. Escolhe, em eleição direta, novos dirigentes nacionais, estaduais e municipais.

O resultado só deve sair nesta segunda (23). Para presidente nacional, o favorito é José Eduardo Dutra, candidato de Lula.

Apresentado como dirigente da nova geração, Dutra traz o velho enganchado à sua chapa, apinhada de réus do mensalão.

Pessoas processadas no STF por crimes como corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha.

Entre elas José Dirceu, tachado pelo Ministério Público de chefe da “quadrilha”. Além dele, o deputado João Paulo Cunha.

Vem a ser aquele ex-presidente da Câmara que mandou a mulher buscar valerianas numa agência bancária e disse que ela fora pagar a conta da TV por assinatura.


Ouvida a respeito, a presidenciável petista Dilma Rousseff disse que a volta dos que não foram é parte do processo democrático. Coisa “natural”.


"Ninguém pode se cassado a priori”, disse ela. O Brasil, Dilma recordou, é uma democracia. “Uma das maiores democracias do mundo".


Lula, que acompanhava Dilma, realçou o fato de o PT ser, hoje, mais maduro. Acha que o partido é "muito mais senhor da situação".

Curiosa, muito curiosa, curiosíssima a flexibilização semântica do petismo. Impunidade virou sinônimo de democracia e amadurecimento político.

Há uma semana, Lula classificara o mensalão, maior escândalo de sua gestão, como “armação”.


Não uma armação qualquer, mas “a maior armação já feita contra o governo”. Neste domingo, admitiu que o PT pode ter errado. Nada demais, contudo.

"Não existe na história da humanidade, na história política do mundo, um partido que, estando no poder, não tenha cometido erros...”

“...Isso aconteceu no mundo inteiro e aconteceu no PT. [...] Os erros cometidos devem servir de ensinamentos para que a gente não erre outra vez".


O petismo não parece ter aprendido coisa nenhuma. Jogou Delúbio Soares ao mar e manteve na embarcação todo o resto da carga apodrecida.


Animado, José Dirceu já empresta sua experiência à campanha de Dilma. “É um desafio fazer uma campanha sem Lula”, diz ele.

Fora da cédula, Lula é o grande personagem da campanha. Dedica-se a apaziguar as desavenças estaduais do PT com seus aliados, sobretudo o PMDB.


Nascido há três décadas como borboleta da política brasileira, o PT protagoniza uma inusitada volta ao casulo, túmulo da lagarta.

O partido já acomodou na enciclopédia um verbete indigno de sua história. Desceu aos livros como larva. Vai à posteridade com um rastro pegajoso de perversões.


O PT e Lula protagonizaram o caso mais dramático de flexibilização das fronteiras ideológicas.


No governo, Lula se deu conta de que quem ele era antes de tomar posse, em 2003, não estava preparado para o sucesso.
 
Não tendo escrito nada, esqueceu do que falara. Mimetizando FHC, adotou a edulcorada retórica do arranjo, do possível.

Abandonou as convicções que lhe emprestavam aquele ar de sapo-cururu. O ex-PT integra-se à baixeza comum a todos os partidos.
Peleja para provar-se capaz de ceder a todas as abjeções políticas, inclusive a das alianças esdrúxulas.


Ao dar à capitulação o nome de amadurecimento ou de democracia, Lula e Dilma afrontam o léxico.


Coisa própria do cinismo que caracteriza o universo político brasileiro, onde qualquer coisa pode significar qualquer coisa.


O novo Lula e o ex-PT provam que, com o passar do tempo, qualquer um pode atingir a perfeição da impudência.
Escrito por Josias de Souza às 23h04, Blog do Josias, UOL



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