Do UOL Notícias*
Em São Paulo
O presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, anunciou que está organizando na Nicarágua um "exército popular e pacífico" formado por seus militantes, com os quais pretende retornar ao cargo do qual foi deposto por um golpe em 28 de junho.
"Nos próximos dias, quero regressar a Tegucigalpa. É certo que quero um acordo político, mas quero regressar porque o povo ganhou a batalha", explicou o líder, na noite da quarta-feira, durante um comício com 300 militantes, na cidade fronteiriça de Ocotal. "Começaremos com a etapa de capacitação, de formação ideológica, formação política", anunciou Zelaya, que pediu aos milicianos que escolhessem para si um pseudônimo. "Será a milícia popular que vai cuidar do presidente em seu retorno, são os senhores, companheiros!".
Apesar de não esclarecer se haverá treinamento militar, o governante deposto declarou que sua luta será "pacífica" e que os membros do agrupamento "usarão as armas da inteligência e da razão". Zelaya também prometeu recompensar seus partidários quando regressar ao poder.
Personagens da crise: os protagonistas
Manuel Zelaya foi eleito presidente de Honduras pelo Partido Liberal (centro-direita) em 2005 e assumiu no ano seguinte, com mandato até 2010. Durante seu governo, aproximou-se dos governos de esquerda da região e Honduras passou a fazer parte da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), bloco liderado por Venezuela e Cuba. Em junho deste ano, tentou promover um referendo para mudar a Constituição e permitir a reeleição presidencial, iniciativa que foi considerada ilegal pelo Parlamento e pelo poder Judiciário. No dia 28 de junho, quando iria levar adiante a votação, Zelaya, ainda de pijamas, foi expulso do país por militares e deposto do cargo de presidente
Roberto Micheletti, também do Partido Liberal, era presidente do Parlamento hondurenho quando Zelaya foi deposto. Assumiu a Presidência e defende que a manobra foi legítima, com o objetivo de proteger o país de um suposto golpe de Zelaya contra a democracia. Durante seu governo interino, que não foi reconhecido por nenhum outro governo, o país foi expulso da OEA e teve parte do financiamento externo congelado. Micheletti anunciou que Zelaya será preso caso volte ao pais.
Zelaya está em Ocotal desde a última sexta-feira, quando atravessou a fronteira com Honduras de modo simbólico por alguns instantes. Em território nicaraguense, o presidente deposto está sendo protegido por policiais locais e recebe alimentos e abrigo da Frente Sandinista, partido do atual presidente do país.
Os Estados Unidos já se manifestaram contrários à pressão feita por Zelaya na região de fronteira, defendendo uma resolução negociada e pacífica da situação. Setores do governo nicaraguense, incluindo o vice-presidente Jaime Morales, também criticaram as atividades do presidente deposto na fonteira.Ao mesmo tempo que organiza seu "exército", Zelaya trabalha no campo diplomático pedindo que a comunidade internacional pressione por seu retorno. Na tarde desta quinta-feira, o presidente deposto se reuniu na embaixada hondurenha em Manágua com representantes dos Estados Unidos, entre eles o embaixador em Tegucigalpa, Hugo Llores.
Congresso de Honduras adia decisãoNesta quinta-feira o Congresso de Honduras adiou para a próxima segunda (2) sua decisão sobre o Acordo de San José, proposta de consenso apresentada na última semana pelo mediador Oscar Árias para superar a crise institucional hondurenha.
O Congresso formou uma comissão sobre o tema na segunda-feira e havia programado entregar a resposta oficial hoje, mas o plano ainda enfrenta resistência dos parlamentares, que recusam a ideia de restituir a presidência a Zelaya.
O presidente do Legislativo, Alfredo Saavedra, anunciou nesta quinta-feira que a próxima sessão acontecerá na segunda. O objetivo é realizar uma rodada de consultas com diferentes setores da sociedade civil e instituições -- uma proposta apresentada mais cedo por Micheletti.
"O importante é que todos os setores, como a Igreja Católica, a evangélica, o setor privado, as câmaras de comércio e a sociedade civil em todos os seus aspectos possam participar", disse Saavedra à imprensa."
Isto é o que quer o presidente Arias, acrescentou o parlamentar. "Uma manifestação que realmente seja fortalecida e respaldada pela maior parte do povo hondurenho".
O Tribunal Superior Eleitoral de Honduras já se manifestou contra um dos pontos do plano, que propunha antecipar em um mês as eleições gerais convocadas para o dia 29 de novembro, enquanto a Procuradoria Geral se opõe sobre a anistia dos crimes políticos de ambos os lados da crise.A comunidade internacional, que não reconhece o governo interino, já anunciou que não vai legitimar um presidente que seja eleito sem que Zelaya retorne ao país.
Protestos em TegucigalpaPelo menos seis pessoas ficaram feridas e 88 foram detidas nesta quinta-feira quando a polícia dispersou seguidores de Zelaya, que bloqueavam uma estrada perto da capital, Tegucigalpa.
Raio-X de HondurasNome oficial: República de Honduras
Capital: Tegucigalpa
Divisão política: 18 Estados
Línguas: espanhol, garifuna, dialetos ameríndios
Religião: católica 97%, protestantes 3%
Natureza do Estado: república presidencialista Independência: da Espanha, em 1821
Área: 112.088 km²
Fronteiras: com Guatemala (256 km), El Salvador (342 km), Nicarágua (922 km)
População: 7.792.854 de pessoas
Grupos étnicos: mestiços 90%, ameríndios 7%, negros 2%, brancos 1%
Economia: segundo país mais pobre da América Central; dependente de exportação de café e banana; principal parceiro econômico é EUA
Taxa de desemprego: 27,8%
População abaixo da linha da pobreza: 50,7%
O porta-voz da polícia Orlin Cerrato disse à imprensa que os feridos são seis, um dos quais está em estado grave, já que recebeu um tiro na cabeça.A imprensa local assegura que os feridos podem chegar a oito, e que alguns detidos já foram postos em liberdade em uma delegacia da capital hondurenha, onde permaneceram várias horas.
O porta-voz policial disse que hoje aconteceram ao menos dez bloqueios de estradas em todo o país, em algum dos quais a Polícia precisou usar a força para abrir caminho.
Em Tegucigalpa, "houve uma enorme repressão. Há feridos, há agredidos, atiraram bombas lacrimogêneas e pelo que sei há detidos", disse à Agência Efe o líder sindical e dirigente da Frente de Resistência contra o Golpe, Carlos H. Reyes, em meio aos distúrbios.
O dirigente do movimento contra o golpe, que também é candidato presidencial independente para as eleições de 29 de novembro, assegurou que a polícia e o exército utilizaram tanques e gás lacrimogêneo para expulsá-los do local.
Os seguidores de Zelaya vêm se manifestando diariamente desde 28 de junho passado, quando os militares o expulsaram do país e o Congresso nomeou para o posto o então legislador Roberto Micheletti, cujo governo não foi reconhecido internacionalmente.
Até o momento, as operações da polícia e do exército contra os manifestantes que exigem a restituição de Zelaya deixaram três mortos.
Com agências internacionais e Folha Online