sexta-feira, 29 de maio de 2009

Entre o perigoso e o lamentável

O presidente do Senado, José Sarney, foi pego pela Folha recebendo auxílio-moradia de R$ 3.800 por mês apesar de morar em seu próprio imóvel em Brasília.
Sarney primeiro negou. Disse que "nunca" havia recebido o dinheiro. Seus assessores alegaram que era falsa a lista total de quatro senadores recebendo o auxílio irregular (um do DEM, um do PT, um do PSDB e um do PMDB, num ecumenismo revelador).
Diante dos fatos, porém, Sarney confessou e pediu desculpas. "Eu nunca pedi auxílio-moradia e, por um equívoco, a partir de 2008, segundo me informaram, realmente estavam depositando na minha conta. Mas eu já mandei dizer que retirassem, porque eu nunca requeri isso e tinha a impressão de que não estava recebendo. Portanto, dei uma informação errada e peço desculpas".
Corta para o Reino Unido: o presidente do Parlamento de lá, Michael Martin, renuncia após o jornal "Daily Telegraph" revelar uma série de gastos escandalosos dos parlamentares.
Notem que Martin não foi acusado pelos abusos com o dinheiro público. Caiu porque quis proteger o antigo regime de gastos descontrolados exposto pelo diário londrino.
Ao contrário do que acontece no Brasil, onde denúncias gravíssimas nos jornais geram pouco mais do que cartas de leitores indignados, no Reino Unido a revelação da gastança imoral dos parlamentares já provocou, entre outras consequências, suspensão drástica de verbas e o consenso de que será preciso instaurar controle externo sobre as finanças do Parlamento.
Já os deputados denunciados devem, por iniciativa própria ou pressão partidária, desistir da reeleição, até porque a grande maioria não seria reeleita.
O que se viu só neste ano no Congresso Nacional é de uma gravidade muito maior do que o que causa tanta transformação em Westminster. Mas em Brasília não há escândalo que ameace o antigo (eterno?) regime político brasileiro.
O.k. Posso até admitir que comparar a imatura democracia brasileira com o berço da democracia moderna é covardia.
Corta, então, para a Coreia do Sul, que viveu sob ditadura na maior parte dos anos 1980: Nesta semana, o ex-presidente sul-coreano Roh Moo-hyun, acossado por denúncias de corrupção no seu governo, subiu num penhasco perto de sua casa e se atirou. Na nota de suicídio, escreveu à família: "Não fiquem tristes. Vida e morte são parte da natureza. Não culpem ninguém. Aceitem como destino".
Alguém imagina um político brasileiro se atirando de uma pirambeira após denúncia de corrupção? Ele no máximo retorna ao seu curral eleitoral, para ovação popular.
O.k. Os coreanos são pessoas muito diferentes dos brasileiros.
Então precisamos inventar um modo brasileiro de faxina política. Porque o sistema político atual limita nossa capacidade de desenvolvimento.
O modo mais simples e direto seria a aplicação da lei, sempre o melhor instrumento contra o crime. Não tenho dúvida de que a população apoiaria em massa a formação de uma força-tarefa de procuradores, policiais e juízes anticorrupção. A abundância das evidências facilitaria a tarefa.
O problema é que não há força política organizada no Brasil capaz de viabilizar este esforço sanitário. A luta contra a corrupção não é bandeira de nenhum grande partido, de nenhuma grande liderança política, apesar do enorme apelo popular da causa, porque todos esses grandes partidos e lideranças são parte do problema, não da solução.
O ministro da Justiça, o brasileiro melhor posicionado para viabilizar essa força-tarefa, outro dia falou: "É sabido que determinadas empresas colocam um adicional de preços nas licitações porque depois vão ter que financiar campanhas eleitorais, seja legalmente, seja pelo caixa dois".
O "é sabido" de Tarso Genro não foi seguido por um "e é por isso que estou criando imediatamente uma força-tarefa para acabar com esse crime de lesa-pátria". Não. O petista na verdade usou-o como argumento para defender uma reforma política. Aquela que nunca será efetiva se feita por esses políticos.
O que nos coloca num beco sem saída à vista. E indica que a solução virá do desconhecido, o que é perigoso. Ou não virá, o que é lamentável.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo.

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