Bruno Doro
Em Roma (Itália)
"Quando toquei meu lábio, antes da prova, estava dormente. Aliás, meu corpo inteiro estava dormente". Foi assim, se estapeando até perder toda a sensibilidade de braços ou pernas, que o brasileiro entrou em um grupo muito seleto de lendas da natação. Neste sábado, ele chegou a um feito que somente outros dois nadadores fizeram antes dele.
A PREPARAÇÃO DE CIELO
"Acho que chego a um ponto em que não sinto mais nada", explica o nadador.
"Tem que estar o mais pronto possível no momento certo. É muito treino de reação".
Só chegaram ao ouro nos 50m e nos 100m no mesmo Campeonato Mundial o norte-americano Anthony Ervin, em Fukuoka, em 2001, e Alexander Popov, que fez duas vezes, em Roma-1994 e Barcelona-2003.
"Quando você está treinando, tem umas idéias meio loucas, acha que pode fazer isso. Mas chega na hora, sabe que é difícil", disse Cielo.
Tão difícil que, pela segunda vez em Roma, ele chorou no pódio. Ao ver suas lágrimas, os italianos se renderam ao charme do nadador de 22 anos de Santa Bárbara d'Oeste. Como fazem ao tocar o hino italiano, bateram palmas no ritmo do hino brasileiro. "Eu sou assim, emotivo. Vou continuar chorando. Vou continuar me batendo. Sou um pouco louco", resume.
Confira a entrevista que o brasileiro deu após conquistar o ouro dos 50m livre, em Roma:
Todos achavam que o recorde mundial de Fred Bousquet (20s94) iria cair na final. O que aconteceu?
Eu não estava me sentindo tão bem quanto na final dos 100m. Sabia que ia ser um teste para a minha cabeça. É muito difícil nadar os 50m quando você não está tão bem quanto gostaria.
Acordei cansado nesses dois últimos dias. Hoje à tarde, cheguei para o Brett (Hawke, seu técnico) e falei: "Esquece o tempo que não vai dar (recorde mundial). Hoje é bater na frente. Recorde mundial pode cair a qualquer hora.
BOUSQUET: 'CIELO É O MELHOR'
Fred Bousquet é o mais rápido homem do mundo. Seu recorde mundial, 20s94, continuou vivo apesar da avalanche de marcas do Mundial de Roma. Mesmo assim, se rendeu ao talento do brasileiro."César é o número 1. Provou que é o melhor do mundo em 2009", afirmou Bousquet. "Eu o vi crescendo, sabia o que podia fazer".
Os dois treinam juntos em Auburn, no Alabama, com o técnico australiano Brett Hawke. "Lá é o melhor lugar para um velocista. Tenho o melhor técnico do mundo e o melhor parceiro de treinos do mundo", voltou a elogiar o francês.
O brasileiro também é só elogios ao amigo - com quem, inclusive, chegou a jantar durante o Mundial, apesar de estarem sempre nadando um contra o outro. "Quando cheguei em Auburn, me assustei. Achei que ele fosse um monstro, era o recordista mundial de piscina curta. Mas ele era pequeno (1,88m) para um velocista, menor do que eu. Imaginava um cara do tamanho do (gigante de 1,96m) Bernard. Mas desde o primeiro dia, nós sempre nos demos bem."
Ganhar o ouro dois dias ajudou?
Acho que sim. É bom ganhar e tirar o peso das suas costas, saber que você deu o seu melhor o tempo todo. E eu sabia que estava bem e que queria continuar sendo rápido. Depois dos 100m, comecei a tratar a competição como se fosse o começo, como se não tivesse nadado ainda. Mas sabia, também que eu era o alvo, que todos iriam olhar para mim e tentar me derrotar.
Você é apenas o terceiro a ganhar os 50m e os 100m no mesmo campeonato. Já tinha imaginado isso?
Algumas vezes, você está treinando e visualizando o que pode acontecer. Pensei que seria bom ganhar os 100m e os 50m e aconteceu. Eu assisti ao Popov no Mundial de Barcelona, em 2003, pela televisão. Mas o segredo não é só nadar rápido. É uma coisa mental, de dedicação. Treinar direito, descansar direito. Pensar em piscina 24 horas e 7 dias por semanas. É uma dedicação completa.
Você voltou a chorar no pódio. Na segunda vez, não deu para se acostumar?
Acho que minha família é emocional. Antes da prova, consigo controlar muito bem a minha cabeça. Mas depois, solto tudo. E espero continuar chorando. Não ligo se as pessoas tirarem sarro de mim. Podem tirar sarro enquanto eu for o melhor. É muito bom no topo do pódio. Ouvir o hino nacional.
E o ritual antes da prova?
Você se bate tanto que ainda está vermelho, 30 minutos depois de cair na piscina.
Hoje, eu toquei meus lábios (antes da prova) e estava tudo dormente. Meus dedos, minha perna, estava todo dormente. Sai dos 100m sem sentir minhas mãos. Acho que chego a um ponto em que não sinto mais nada. É só a sua mente e o controle da mente. Acho que não é o ideal para um velocista não sentir suas mãos, mas eu já sei o que é preciso fazer.
Se sabe o que fazer, qual o segredo, então?
Acho que é estar o mais pronto possível no momento certo. É muito treino de reação e foco no tempo. No fim do dia você relaxa.O que você ainda acha que pode fazer? Aonde pode chegar?Novos objetivos a gente sempre acha. Eu tenho certeza que ainda tenho muito espaço para melhorar nos 50m livre. E nos 100m, sempre dá para melhorar. Eu quero achar meu limite.
E onde está esse limite? Em Auburn? Ou é possível voltar para o Brasil?
Esse ano foi bom para mostrar que eu preciso ir pra Auburn. É lá que tenho de estar para ser o melhor. O Brasil pode esperar. Se querem me ver ganhando, é assim que tem de ser. Não tenho nem que pensar em outro lugar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário