quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Enfraquecido, Ahmadinejad toma posse após 'revolução' nas ruas iranianas

Em entrevista ao G1, pesquisador iraniano diz que eleição mudou o país.
Para Hooman Majd, posse não é exatamente uma demonstração de força.
Daniel Buarque Do G1, em São Paulo

Quase dois meses depois da controversa eleição iraniana de 12 de junho, o presidente Mahmoud Ahmadinejad tomou posse nesta quarta-feira (5), dando início a seu segundo mandato de quatro anos. O esquema de segurança foi intenso nas imediações do Parlamento e o novo presidente falou em "união" e criticou a interferência internacional em assuntos do país.

Apesar de uma série de protestos da oposição, que tomou as ruas das principais cidades do país, a reeleição de Ahmadinejad acabou confirmada por todas as instituições políticas do Irã, e foi aceita até mesma pelo principal rival internacional depois que a Casa Branca declarou que ele é o “líder eleito” do país.
Manifestantes pintam as mãos com as cores da bandeira do Irã em protesto contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad (Foto: AP)
Para o pesquisador iraniano Hooman Majd, entretanto, a posse não é exatamente uma demonstração de força do governante, que vai ter que lidar com um grupo mais ativo na oposição e, em algum momento, vai ter que aceitar reformas na estrutura de poder do Irã. “Teremos um governo mais fraco, e Ahmadinejad perdeu força pessoal, pois muitos questionam o fato de ele ter ganho ou não a eleição”, disse, em entrevista ao G1. “Os partidários do presidente acham que os protestos vão simplesmente acabar, mas é difícil acreditar nisso. A oposição não vai abrir mão da luta contra ele depois de tanto que já fizeram, a diferença é que agora deve ser uma atuação política, dentro da lei, em vez de protestos nas ruas.” Majd não acredita que Ahmadinejad vai chegar a perder sua legitimidade, já que as instituições do país (do Líder Supremo à Guarda Revolucionária) defenderam o governante, mas diz que os protestos populares vão ficar marcados como um momento definidor do país. “Por mais que não possamos ver isso como uma revolução, vimos cerca de 2 milhões de pessoas protestando contra os resultados das eleições. No Irã, o voto é uma das poucas forças políticas que as pessoas têm, e na hora em que elas sentiram que perderam esta força, resolveram protestar. Isso pode trazer grandes mudanças no futuro.” Ele nega que seja possível vislumbrar uma mudança radical, mas diz que a polêmica interna por conta das acusações de fraude deve acelerar mudanças necessárias dentro do sistema. “Mesmo que não possamos falar de uma mudança radical, uma pequena reforma política é necessária, e em algum momento ela virá, graças a um momento de ruptura como estes protestos.”

Imprensa
Autor de “The Ayatollah Begs to Differ”, livro em que tenta decifrar os paradoxos da sociedade iraniana, Majd teve formação ocidental, mas viaja frequentemente ao país, e esteve lá por alguns meses antes da votação de junho. Segundo ele, houve exagero por parte da imprensa ocidental que cobriu as manifestações após a eleição, e nunca houve um movimento que pudesse ser visto como uma nova revolução no Irã. “A imprensa errou. É impossível comparar o que houve agora com os protestos de 1979, pois na Revolução Islâmica havia um movimento contra todo o sistema que dominava o país, com apoio da vasta maioria da população. A mídia ocidental exagerou ao tratar os protestos contra o resultado das eleições como uma nova revolução no país. Foi longe disso”, disse.

Segundo ele, é verdade que muitas pessoas foram às ruas protestar, mas a maioria delas queria apenas que seus votos fossem recontados, ou que houvesse uma nova eleição. “Não podemos dizer que a maioria da população iraniana protestou contra o sistema, ou queria mudar tudo no país.” Para comprovar a tese, ele alega que Ahmadinejad continua tendo apoio de pelo menos 40% da população, mesmo que tenha havido fraude na eleição, o que ele admite ser impossível saber de fato. “É possível que ele tenha ganho a eleição”, disse. “Acho pouco provável que ele tenha vencido por uma vantagem tão grande, pois estive lá até uma semana antes da eleição, e era possível ver que, em todo o país, a oposição tinha força. É impossível provar que houve fraude, pois não temos acesso aos documentos, mas há muitas questões em aberto sobre o processo eleitoral, mas é um cenário muito pouco provável o da vitória fácil de Ahmadinejad.” Majd admite que os protestos populares ganharam um caráter mais radical contra o sistema após a repressão violenta do governo, mas no início, diz, as manifestações eram puramente eleitorais.

EUA
Conversando por telefone enquanto andava pelas ruas de Nova York, Majd defendeu a postura do governo norte-americano, que havia acabado de reconhecer a reeleição de Ahmadinejad. Segundo ele, Obama fez tudo correto em relação ao Irã.

“A verdade é que não cabe aos Estados Unidos decidir quem é o presidente legitimo do Irã. A função de Obama é defender os interesses nacionais dos EUA e, se ele começa a dizer que uma eleição em outro país é certa ou errada, deixa de poder defender seus interesses diretamente, pois o país tem boas relações com vários países que não têm um sistema exatamente confiável de democracia”, disse, lembrando que até os EUA tiveram problemas neste sentido, como quando George W. Bush foi eleito em 2000, sob suspeitas de fraude e acusações de ilegitimidade. “Pelo contrário, se Obama não aceitasse Ahmadinejad como presidente, poderia trazer problemas, pois a linha mais dura do governo iraniano poderia usar isso contra os opositores, alegando haver influência internacional nos protestos.” Segundo ele, entretanto, a decisão de Obama não vai afetar em nada na situação interna do Irã. “Ele tem um grande apelo no país, mas não tanto quanto se poderia esperar. As pessoas gostam dele, mas a opinião dele sobre Ahmadinejad não afeta em nada a vida política do país.”

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