quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Maioria dos usuários de crack rejeita ajuda do governo

Mauricio Stycer, repórter especial do iG
Dados fornecidos pela Secretaria de Saúde de São Paulo ao Último Segundo mostram a dificuldade no atendimento à população de rua que vive na chamada Cracolândia, no centro da cidade. Desde o início de uma operação conjunta com a área de segurança, no último dia 22 de julho, 126 agentes de saúde (21 equipes) já abordaram 2.186 pessoas, oferecendo auxílio, mas apenas 240 aceitaram ser encaminhadas para alguma unidade médica.

Do total, 1.460 pessoas rejeitaram qualquer contato com os agentes, enquanto 450 aceitaram a abordagem, mas sem dar muita conversa (o que a secretaria classifica como “vínculo frágil”).
“É preciso perseverança”, diz Januário Montone, secretário municipal da Saúde de São Paulo.
Confrontado com os dados, o secretário prefere vê-los pelo lado positivo. Estima-se haver cerca de 13 mil pessoas vivendo nas ruas na cidade de São Paulo, 80% deles concentrados nos dez distritos na região central – o que inclui a Cracolândia. “Isso quer dizer que, em duas semanas, conseguimos abordar 20% dessa população”, diz o secretário.

Montone afirma que o município dispõe de toda a infra-estrutura, do ponto de vista médico, para “acolher, atender e internar” usuários viciados em crack, mas rejeita a pressão para a internação forçada dessa população. “Outro dia houve um movimento de comerciantes nas ruas, pedindo a internação (dos usuários). Não é assim. Não é assim que vai funcionar”, diz. “A internação é uma exceção”.

O secretário também critica uma ação da Guarda Civil Metropolitana, realizada no início de julho, na Cracolândia, que resultou no recolhimento de mais de duas centenas de usuários de crack. “Foi uma ação desastrada”, diz.

O secretário não conhece a ONG É de Lei, cuja ação de redução de dados com usuários de crack foi descrita em reportagem no Último Segundo. A ONG distribui piteiras e manteiga de cacau para os viciados, no esforço de evitar que machuquem os lábios ao fumar o crack em cachimbos de metal. “Tudo que nós podemos fazer, acho louvável”, diz.

Montone se preocupa apenas com ações que levam a uma acomodação do problema. “Uma coisa é tratar o usuário com respeito, outra é não resolver o problema... Temos que abrir a conversa. O usuário (de crack) não é um criminoso. Nós não vamos interná-lo, como no (filme) ‘Bicho de 7 Cabeças’ para que ele desapareça de vista”.

Uma das dificuldades na ação, conta o secretário, é a abordagem às crianças – tanto usuárias como traficantes de crack. “O adulto está no direito de não querer ajuda. Mas e a criança?”

O secretário conta a história da menina de 15 anos, grávida, dependente de drogas e álcool, com doença sexualmente transmissível, internada durante a operação na Cracolândia. Para mantê-la internada, contra a sua vontade, a secretaria recorreu à Justiça, que permitiu a ação médica. “Não podemos tratar esses casos como exceção”, diz, sugerindo a necessidade de rediscutir a legislação.

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