quinta-feira, 2 de julho de 2009

Partidos antecipam debate sobre sucessão de Sarney

Ao pendurar nas manchetes a ameaça de “renúncia”, José Sarney precipitou o debate sobre a ocupação de uma cadeira que, em tese, ainda é sua.

Sarney se antoimpôs um futuro sem meio-termo. Ou fica no cargo ou renuncia de vez. Não cogita pedir licença.

Disseminou-se no Senado a impressão de que a presidência de Sarney, sitiada por denúncias de favorecimento a familiares e amigos, foi à UTI.

O eventual apoio do PT pode funcionar como um balão de oxigênio. Mas não vai tirar da maca a recém-inaugurada gestão Sarney.

“Hoje, o Senado é uma Casa sem governo. Sarney não preside mais o Senado”, diz Sérgio Guerra, presidente do PSDB.

José Agripino Maia, líder do DEM, avalia que, sem um pedido de licença, o drama de Sarney tende a se tornar mais agudo.

“Há duas crises no Senado”, disse Agripino ao blog. “Uma é administrativa. Outra é política...”

“...A crise administrativa está sendo tratada a cada denúncia, com remédios tópicos e eficazes...”

“...A crise política envolve as denúncias contra o presidente Sarney. Essa resulta em discussão política, em alianças e em desentendimentos...”

“...A superação envolve uma investigação que possa ser acreditada pela sociedade. Algo que só seria obtido se Sarney se licenciasse”.

Nesta quarta (1), Agripino conversou com Arthur Virgílio, líder do PSDB. Em fevereiro, divergiram. Os ‘demos’ foram de Sarney. O tucanato foi Tião Viana (PT-AC).

Agora, estão decididos reunificar a parceria. Enquanto aguardam pelo desfecho do martírio de Sarney, analisam nomes.

Agripino traça o perfil do candidato ideal: “Para ganhar, temos que ter nome com uma imagem muito próxima da de Jesus Cristo...”

“...Uma espécie de Nossa Senhora do Senado”. Pedro Simon? “Pode ser”, diz Agripino.

Numa troca de idéias com Sérgio Guerra, Arthur Virgílio levou à mesa uma alternativa anódina: Neuto de Conto (PMDB-SC).

Para Aloizio Mercadante (SP), a oposição vai “com muita sede ao pote”. Na noite passada, o líder petista trabalhava com a idéia de permanência de Sarney.

Mais: agia para assegurar o apoio do PT ao morubixaba do PMDB. “Não excluo a hipótese de renúncia, mas não creio que seja o cenário mais provável”.

Em privado, o ex-candidato Tião Viana (PT-AC) diz que, reabrindo-se a sucessão no Senado, não cogita voltar à disputa. “Nem que a cadeira fosse pintada de ouro”.

Enquanto tenta manter Sarney acomodado na poltrona, Renan e seu grupo também esboçam um “Plano B”.

São quatro, por ora, os nomes cogitados: Romero Jucá, Garibaldi Alves e os ministros Hélio Costa (Comunicações) e Edison Lobão (Minas e Energia).

Candidato ao governo de Minas, Hélio Costa talvez não se interesse.

Reponsável pela nomeação do ex-diretor João Carlos Zoghbi, um dos dentes da engrenagem podre do Senado, Lobão iria à disputa como um seis que se dispõe a substituir o meia dúzia.

Restam Garibaldi e Jucá. O primeiro foi presidente-tampão nas pegadas do desastre Renan Calheiros. Não fez feio.

O segundo, líder de Lula no Senado, responde a três inquéritos no STF. Num deles, é acusado de crime de responsabilidade por desvio de verbas públicas.

Em 2005, já na gestão Lula, Jucá foi arrancado da cadeira de ministério da Previdência por uma enxurrada de denúncias de corrupção.

A acusação mais pesada acomodava-o no centro de um empréstimo no Banco da Amazônia que teria fazendas fantasmas como garantia.

Não parece o personagem mais indicado para conduzir um Senado que, no gogó, almeja uma limpeza ética.

A ficha de Jucá não difere muito da de outros políticos que compõem o miolo do grupo de Sarney.

Na noite passada, depois de passar o dia toureando o PT com ameaças de renúncia, Sarney reuniu-se com o seu pessoal.

Foram à casa dele, entre outros, Renan, Jáder Barbalho, Gim Argello e Wellington Salgado.

Renan foi acusado, em 2007, de pagar a pensão do filho que teve com uma ex-amante com verbas de um lobista de empreiteira.

Para provar-se inocente, levou à mesa papéis que o tornaram suspeito de lavar dinheiro com a venda de gado.

De resto, viu-se enredado em denúncias de uso de laranjas na compra de rádios e de um jornal. Para salvar o mandato, renunciou à presidência do Senado.

Jáder responde a quatro ações e dois inquéritos no STF. Em 2001, sob FHC, foi acusado de tomar parte de desvios na Sudam que alçaram a casa dos R$ 3 bilhões.

Acusaram-no também de desviar verbas do Banco do Pará e de receber propina à época em que era ministro da Reforma Agrária de Sarney.

Para se livrar da cassação, Jáder teve de abdicar da presidência do Senado e do mandato. Voltou como deputado.

Argello tem contra si 38 processos por crimes eleitorais. É investigado por corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação e apropriação indébita.

Salgado foi denunciado ao STF pelo Ministério Público por supostas fraudes tributárias de empresas de sua família.

Escrito por Josias de Souza às 08h04, Folha Online, UOL

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