segunda-feira, 1 de junho de 2009

Seca no Sul eleva preço da energia em 1%

Acionamento de usinas térmicas para preservar hidrelétricas virá nas contas de luz.

Rio - Os fenômenos climáticos que mudaram a paisagem do País, de Norte a Sul, vão chegar às faturas de energia. A previsão é de que alta seja de 1%. A seca que atingiu a região Sul levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a acionar todas as usinas térmicas do sistema interligado nacional, exceto uma, a de Canoas, para evitar que os reservatórios das hidrelétricas sejam prejudicados. Isso vai gerar um gasto adicional de R$ 800 milhões este ano. A conta chega ao bolso aos poucos, em cada reajuste anual.
“A despesa gerada pelo acionamento das usinas térmicas é parte dos custos não gerenciáveis das distribuidoras e tem impacto nas contas de luz, por meio da conta especial descrita como “Encargo de Serviços do Sistema””, explica o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura e representante da Fundação Coge, Adriano Pires.
Ele destaca que, no ano passado, essa conta atingiu R$ 2,3 bilhões, que já estão sendo repassados às tarifas de energia este ano. “O impacto da despesa adicional este ano deve ser de 1%, pressionado pela alta do dólar que, desde o estouro da crise mundial, no ano passado, saiu do patamar médio de R$ 1,70 para R$ 2”, explica.
E a situação do clima não deverá mudar muito nos próximos três meses. Segundo o Chefe do Centro de Previsão do Tempo do Inmet, Luiz Cavalcanti, as chuvas no Norte vão continuar, e a seca no Sul deve dar uma trégua. “A previsão é a de chuvas acima da normalidade no Norte e no Nordeste. No Sul, tudo indica que a seca será atenuada, mas vai chover abaixo do normal”, prevê o técnico.
O presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores de Energia, Ricardo Lima, afirma que a conta não deverá atingir somente o bolso do consumidor nos períodos de reajuste. “Para a indústria, a conta não leva um ano para chegar, vem no mês subsequente. O custo é repassado ao consumidor final. Estamos pedindo uma mudança no sistema de cobrança da energia adicional. As geradoras, que são beneficiadas, deveriam ratear essa conta”, defende Lima.
HERMES CHIPP, PRESIDENTE DO ONS: USUÁRIOS PAGAM PELA SEGURANÇA
1. Para o Operador Nacional do Sistema Elétrico, é preocupante a situação dos reservatórios nas hidrelétricas do Sul?— A seca na região deu os primeiros sinais em abril. São as piores situações hidrológicas em 77 anos. A água que tem entrado nos reservatórios das usinas hoje corresponde a 26% da média histórica em abril e maio, ou seja, um quarto do volume normal. De fato, preocupa. Mantemos contato permanente com o Inmet e sabemos que a situação só vai melhorar em junho. Nosso planejamento leva essa condição em consideração.
2. A saída foi ligar as usinas térmicas. Mas isso não vai custar caro, a exemplo do que aconteceu em 2008?— A saída foi acionar as usinas térmicas a carvão e a gás natural, que garantem 1.300 megaWatts (mW) e transferir 5.400 mW do sistema interligado. Os 1.500 mW restantes estão sendo abastecidos pelo próprio sistema hídrico. No horário de pico, transferimos mais energia para a Região Sul.
3. Há críticas sobre o momento de acionar as térmicas. Havia o nível de 20% de capacidade no reservatório. Ainda não se chegou a tanto. Não foi excesso de precaução? — Hoje, estamos operando com capacidade média que varia entre 36% e 37% na Região Sul. Distantes da curva de risco, portanto. O que fizemos foi evitar que o nível baixasse. É um estoque de segurança. Nos reservatórios do Nordeste, temos quase 100%, enquanto no Norte, as hidrelétricas estão vertendo água (esvaziando os reservatórios). No Sudeste, e no Centro-Oeste, estamos com 84%.
4. O estoque de segurança, então, vai mesmo custar mais R$ 800 milhões este ano, depois dos R$ 2,3 bilhões de 2008?— Sempre deve haver um impacto quando se utiliza uma térmica complementar. É um seguro. Todos os usuários de energia estão pagando por segurança.
5. Isso significa que a necessidade de preservar os reservatórios mostra risco de desabastecimento, como aconteceu há oito anos, no racionamento de energia?— Não há risco de desabastecimento. O sistema interligado nacional é suficiente para suportar a demanda e opera com segurança. A situação hoje é totalmente diferente daquela que levou ao racionamento. É um fato que precisamos de mais reservatórios. Hoje, há muita dificuldade de licenciamento ambiental para a construção de grandes represas. Temos muitas usinas a fio d’água. Então, a nossa estratégia é a diversificação, com a complementação térmica.

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