quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Minha oculista e uma visão embaçada sobre Honduras

Minha oculista e uma visão embaçada sobre Honduras
30/09 - 00:30 - Caio Blinder, de Nova York, IG

NOVA YORK - Minha oculista dilatava minha pupila e ela arregalava os olhos quando eu tentava explicar o que estava acontecendo em Honduras. Sempre tenho estas conversas esquisitas com a doutora Sumers. Ela é politizada, bem informada, adora relações internacionais, já tentou ser deputada federal por Nova Jersey, é ligada no Brasil, seu filho estudou português na faculdade e o irmão Tom Ricks foi por muitos anos um dos mais importantes repórteres (Pentágono) no "Washington Post". Ele tem, aliás, um ótimo blog sobre segurança nacional no site da revista "Foreign Policy". Mas, de volta ao foco da conversa.

A oculista sabia vagamente da novela hondurenha antes de minha visita ao consultório. Chutou corretamente que o Brasil estava metido em alguma confusão na América Central. De acordo com minha visão das coisas, expliquei o desenrolar enrolado dos acontecimentos em Tegucigalpa, Brasília, Washington e outras capitais mundiais. Levou um tempão para a doutora Sumers entender que Manuel Zelaya não se refugiara na embaixada brasileira, procedente sem escalas do palácio presidencial.
Ela arregalou os olhos quando relatei que Zelaya viera de fora do país (deposto em junho) para fincar acampamento em solo brasileiro em Tegucigalpa. Houve na sequência, a pergunta óbvia: e foi o Brasil que armou a trama? Com objetividade jornalística e já com dor-de-cabeça, esclareci que, na versão do Palácio do Planalto e do Itamaraty, o governo brasileiro fora surpreendido pelos acontecimentos, mas agora esperava que o novo lance ajudasse a superar a crise. Não chequei para ver se a oculista ainda estava com os olhos arregalados diante das alegações e do raciocínio diplomático brasileiro.
A doutora Sumers torce pelo Brasil, não tanto nesta crise centro-americana (que ela não deve ter ainda entendido apesar do paciente didatismo do paciente brasileiro), mas em geral. Confusa, a minha oculista disse esperar que o Brasil não declare guerra às Honduras do governo Micheletti. Disse para ela não se preocupar com este cenário apocalíptico. No entanto, fiz uma advertência: a gente poderia ainda conversar sobre Honduras na minha próxima visita ao consultório.
Contei a história do político peruano Victor Haya de la Torre que, a partir de 1949, passou mais de cinco anos refugiado na embaixada colombiana em Lima. O caso terminou no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia. Primeiro houve uma decisão a favor da então ditadura peruana, que considerava o refugiado político um criminoso comum. Depois, veio a decisão em Haia que a Colômbia não estava obrigada a entregar Haya de la Torre às autoridades peruanas. Ele finalmente recebeu o salvo-conduto para deixar a embaixada e o país. Chega de paralelos. Haya de la Torre foi personagem importante da história latino-americana. Manuel Zelaya provavelmente será uma nota de rodapé. Esperamos que apenas folclórica e não trágica.
Claro que a doutora Sumers não acompanhou estas minhas últimas reflexões. Nem sei se arregalara os olhos novamente ao final da minha história. Ela tinha mais o que fazer, além de se preocupar com Honduras. E eu nem consegui vê-la direito, já com a pupila dilatada. Quanto à minha visão da crise hondurenha, continua embaçada.

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