segunda-feira, 22 de junho de 2009

Guarda Revolucionária ameaça manifestantes e diz estar pronta para "limpar" o Irã

da Folha Online
A Guarda Revolucionária, corpo de segurança de elite do Irã, afirmou nesta segunda-feira que dará uma "resposta revolucionária e decisiva" aos manifestantes que "causarem distúrbios e enfrentarem as forças de segurança" nos protestos da oposição contra fraude na eleição que reelegeu o presidente Mahmoud Ahmadinejad.
"As Guarda Revolucionária, os basijis [milícia islâmica vinculada à Guarda] e as outras forças de ordem e segurança estão dispostas a executar uma ação decisiva e revolucionária para (...) dar fim ao complô e aos distúrbios (...) e limpar o país destes conspiradores e hooligans", afirma um comunicado citado pelas agências de notícias Mehr e Irna.
Esta é a primeira vez que a Guarda Revolucionária, considerada o exército ideológico do regime iraniano, faz uma advertência de tom tão radical desde o início das manifestações após a controversa reeleição de Ahmadinejad em 12 de junho passado.
A Guarda Revolucionária está sob o controle direto do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, que fez discurso na sexta-feira passada (19) no qual rejeitou denúncias de fraude, defendeu a reeleição de Ahmadinejad e deu um ultimato para que os manifestantes saiam das ruas.
O corpo foi criado inicialmente para defender os líderes da Revolução Islâmica de 1979, mas, com o passar dos anos, ampliou sua ação para a defesa dos interesses nacionais. Atualmente, a Guarda conta com mais de 200 mil membros.
Já o Basij é um grupo voluntário paramilitar que está sob ordens da Guarda. O grupo foi o principal acusado pela oposição de usar violência para conter os protestos, incluindo a morte a tiros da jovem iraniana Neda --que se transformou em ícone dos protestos.
O governo iraniano confirma dez mortes no protesto de sábado passado, além de outras sete na segunda-feira passada (15).
Segundo a televisão estatal iraniana Press TV, ao menos 13 pessoas morreram somente no fim de semana. Alguns relatórios não confirmados pelo governo estimam as vítimas em até 150.
Prisões
A polícia iraniana afirma que 457 pessoas foram presas nos confrontos de sábado passado na capital Teerã, que deixou ainda cerca de cem feridos.
As detenções aconteceram durante os confrontos entre manifestantes e forças de segurança, polícia e a milícia paramilitar Basij, nas proximidades da praça Azadi da capital do país.
De acordo com a agência semioficial Fars, ligada ao governo, os enfrentamentos de sábado deixaram ainda 40 policiais feridos e 34 prédios governamentais danificados.
Faezeh Hashemi, filha do ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, e outros quatro membros de sua família que haviam sido detidos no sábado pela polícia "para a própria segurança", segundo as autoridades, foram liberados.
O candidato derrotado na eleição presidencial e líder da oposição, Mir Hossein Mousavi, manteve a convocação por protestos, mas pediu prudência dos manifestantes.
"Nos protestos, continuem evitando a violência. Eu, como uma das pessoas de luto pelas mortes nas manifestações de sábado, convido meu querido povo à prudência. A nação pertence a vocês", escreveu Mousavi em um texto publicado pelo site de seu jornal, "Kalemeh".
"Protestar contra a mentira e a fraude é direito de vocês. Esperamos obter este direito e não permitam aos que querem nos deixar furiosos que consigam isso", completou.
Fraude
O Conselho dos Guardiães, organismo de supervisão eleitoral, admitiu nesta segunda-feira que 50 dos 366 distritos do país registraram mais votos que eleitores, cerca de 3 milhões de votos irregulares.
De acordo com a apuração oficial, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, no poder desde 2005, foi reeleito com 63% dos votos, contra 34% para Mousavi.
Segundo o porta-voz do Conselho dos Guardiães, Abbas Ali Kadkhodai, ainda não é possível "determinar se esse montante é decisivo para [alterar] os resultados da eleição."
O Conselho dos Guardiães informou que as irregularidades foram encontradas entre as 170 cidades onde um dos candidatos derrotados, Mohsen Rezai, disse ter ocorrido os problemas.
Essa admissão abre caminho para a investigação dos 646 irregularidades apontadas pelos três candidatos derrotados --Rezai, Mehdi Karubi e Mousavi.
O presidente reeleito e o seu ministro do Interior, Sadeq Mahsouli, rejeitaram qualquer possibilidade de fraude, dizendo que as eleições foram livres e limpas.
Entre os indícios de fraude, os especialistas apontam o fato de Ahmadinejad aparecer sempre com o dobro de votos de Mousavi nos resultados parciais da apuração, quando é comum que haja variação, graças às diferentes tendências de diferentes regiões do país; e o fato de 39,2 milhões de cédulas terem sido contadas a mão em apenas 12 horas quando, no passado, em eleições com uma menor participação de eleitores, o tempo foi ao menos duas vezes maior.
Há dúvidas ainda por Ahmadinejad ter recebido a maioria dos votos inclusive nas Províncias em que a minoria étnica azeri, a mesma de Mousavi, é majoritária; e pelo clérigo reformista Mehdi Karubi ter conseguido só 0,85% dos votos quando ele obteve 17% no primeiro turno das eleições presidenciais de 2005.

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