Imagine a seguinte situação: um país acaba de realizar uma eleição e apresenta um resultado que levanta sérias suspeitas de fraude. Os protestos começam. A imprensa internacional cobre as passeatas, os gritos e a indignação dos que votaram no candidato da oposição, que perdeu, em uma apuração relâmpago, quase instantânea. Resultado: os jornalistas são impedidos de continuar fazendo reportagens e de mostrar ao mundo o que está acontecendo e são convidados a sair do país. Para furar o bloqueio da censura e da truculência policial e do governo, a tecnologia é o grande recurso. Aí fico pensando: se a internet já existisse há uns 100 anos, muitas ditaduras não teriam resistido por tanto tempo. Nas ruas de Teerã, principalmente jovens, munidos de celular e câmeras digitais, gravam as cenas de violência que a imprensa foi impedida de mostrar. O governo iraniano, em 30 anos, sente-se pela primeira vez impotente diante da insatisfação daqueles que se expressam contra a falta de liberdade e de democracia. O presidente Ahmadinejad, apoiado pelos aiatolás, que na verdade são os que mandam no país, foi reeleito com uma diferença gigantesca sobre o reformista Mir Hossein Mousavi, o que causou revolta entre os que votaram em Mousavi. A partir daí começaram os protestos, que se espalharam pelo Twitter, Facebook, Orkut e outros canais de comunicação com o mundo. Os tiranos hoje têm muito mais dificuldade de reprimir protestos porque a velocidade da tecnologia permite que os internautas, em poucos minutos, acionem redes de contato muito poderosas, capazes de minar a força de qualquer ditador. Isso porque governantes de outros países passam a fazer pressão para que os conflitos acabem o mais rápido possível, evitando um número ainda maior de mortes. O Irã é um país que, apesar de ser dominado por fundamenlistas, possui um número grande de artistas e intelectuais, que não são facilmente manipuláveis. Ahmadinejad, com o seu discurso fascista, de negar o Holocausto na Alemanha, só impede o país de avançar nas relações com outros países, pregando o conflito em vez do entendimento. Para conhecer melhor o Irã e a riqueza da sua cultura, basta entrar em dois sites: o www.kargah.com (que traz as principais produções de artistas contemporâneos do Irã) e o www.iran.cartoon (o melhor site de charges e cartuns do mundo). A internet há vários anos vem nos revelando um Irã que era desconhecido dos ocidentais e agora contribui para que a ditadura naquele país sofra um abalo, com as imagens chegando de lá em profusão a todo momento. Não há mais ilhas nem países que estejam totalmente isolados do resto do mundo. Sempre haverá alguém com uma câmera na mão flagrando um general ou um ditador ordenando o massacre de manifestantes que protestam contra o seu governo. JAIME LEITÃO é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. Jornal de Piracicaba.
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