segunda-feira, 1 de junho de 2009

Sucessão em Marcha

A sucessão presidencial está em marcha e seus ecos são ouvidos quotidianamente, em que pese o cidadão comum não se interessar tanto pelo assunto. Em uma democracia acentuadamente pluripartidária como a brasileira, o que chama a atenção não é sua precipitação, mas o fato de estar restrita a dois pólos. A antecipação do calendário eleitoral não chega a surpreender, pois o poder é o fim último dos que se entregam à política, para o bem e para o mal. Quando Maquiavel chocou o mundo cristianizado ao defender que não há espaço para considerações morais quando está em jogo a salvação do Estado, queria dizer apenas que este é o preço da ordem, da paz e da liberdade. A política, enfim, nada tem de divino, é estritamente mundana. O jogo sucessório reproduz a lição maquiaveliana, o que não quer dizer que sempre esteja no prumo correto. Como acontece desde 1994, petistas e tucanos polarizam e protagonizam o processo trazendo ao seu redor outros tantos satélites. Se cometerem erros, outros "intrusos" poderão postular candidaturas, mas o cenário parece mesmo restrito. Do lado da situação, o projeto sucessório está associado à figura da ministra Dilma Roussef, cuja ascensão em ritmo superior às expectativas mais otimistas fez balançar a oposição. Esta logo reagiu lançando mão de uma perigosa carta na manga: a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre a Petrobras no Senado, onde tem maior expressão. A manobra foi duplamente arriscada: tanto porque pode não justificar-se e assim engrossar a lista de investigações banalizadas, quanto porque pode fazer o feitiço voltar-se contra o feiticeiro, afinal, o marco legal das compras com dispensa de licitações foi herdado do governo anterior, que, por sinal, também sofreu enorme desgaste com a idéia de transformar o caráter da empresa e transformá-la em "Petrobrax". O contra-ataque bateu no fígado: após alguns ensaios e o anúncio da doença de Dilma, apresentação da Proposta de Emenda Constitucional admitindo nova candidatura do presidente Lula. Tal mudança tem um alto poder de frear o ímpeto oposicionista. A julgar pela notável popularidade de Lula, não surpreenderia que a re-reeleição fosse aprovada pelo Congresso e ratificada pelo eleitorado, embora apresente duas objeções cruciais: altera as regras do jogo em meio a sua disputa e subordina as instituições políticas às conveniências da ocasião. Mas qual a autoridade moral da oposição para condená-la se fez manobra similar para assegurar o segundo mandato de FHC? Com a diferença de que naquela ocasião não houve referendo popular. As indefinições no campo tucano, contudo, parecem cada dia menores. Os números alcançados nas pesquisas, o êxito como padrinho da reeleição do prefeito Gilberto Kassab e a manobra seguinte de confinar Geraldo Alckmin em seu governo, tudo faz de José Serra a bola da vez entre os tucanos e seus parceiros. A moldura de 2010 já está sendo desenhada (e, tudo indica, estaremos condenados a uma disputa plebiscitária), razão pela qual nenhum de seus atores poderá alegar desconhecimento ou pasmo. Por essas e outras, fica mais fácil compreender o salto alto de peemedebistas, o mau humor de Ciro Gomes, a impaciência dos governadores e o nervosismo dos demos. Como a representação não é um fim em si ­­ significa transferência de soberania ­­, ficamos na expectativa de que esses arranjos possam produzir plataformas e programas que interpretem minimamente as demandas da sociedade. Afinal de contas, o poder é exercido em seu nome. JEFFERSON O. OULART é cientista político, professor universitário e escreve aos domingos no jornal de Piracicaba.

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