terça-feira, 9 de junho de 2009

Viagem Espacial

Dois mil e vinte e nove.
Dois dentre tantos brasileiros resolvem queimar as sobras dos rendimentos de suas aposentadorias pagas pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Compram seus bilhetes, classe executiva, no que se tornou a moda turística do ano: mandar brasileiros para o espaço no ônibus desenvolvido pela Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A.), obviamente. Uma belíssima espaçonave com carcaça toda transparente para permitir aos passageiros observarem a imensidão do cosmos. Ao se sentarem em poltronas giratórias e individuais, lado a lado, os dois brasileiros acabam por se conhecer. ­­ Companheiro... seu nome? ­­ José Raymundo, e ocê? ­­ Ôpa... xará companheiro, José dos Prazeres! ­­ Prazer! ­­ Prazer! ­­ Quantos anos ocê têm, Raymundo? ­­ 98, e ocê? ­­ Bem mais novo... bem mais novo... só 96! ­­ Êta viagem que deve sê linda! Não sabia onde gastar as sobras da aposentadoria. ­­ Pô, eu também. ­­ Pois é, graças ao Lula! ­­ Ô, se é graças ao Lula, aquele que foi o homem da multiplicação, lembra? ­­ Ô, se me lembro! Raymundo e Prazeres finalmente iam para o espaço como conseqüência de mais uma dentre as tantas gafes verbais cometidas por Lula quando, no último ano de seu mandato, pensando, maquinando mais uma "cirurgia" para a candidata Dilma, resolveu garantir os votos dos aposentados. Convocou a imprensa no palácio para uma audiência na qual assinaria importante decreto. Apresentou-se com todos os ministros a sua esquerda, exceto Dilma, separada dos demais e postada estrategicamente a sua direita. A mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) se portou o tempo todo com o braço levantado, segurando entre o indicador e o polegar uma reluzente caneta preparada para o desenlace. ­­ "Minha consciência não permite passar o governo para quem quer que seja a futura presidente ­­ disse olhando para Dilma ­­ sem antes pagar uma dívida que tenho para com os aposentados deste imenso Brasil; não poderia sair sem lhes aumentar a aposentadoria tantas vezes quanto possível e o faço com a aprovação total de meus ministros que aqui se encontram". Um repórter esperto logo interferiu: presidente Lula, quantas vezes? Como Lula havia imaginado 9%, levou as duas mãos para o alto. Zum-zum geral no salão. Os ministros da área econômica, a um passo atrás de Lula, colocavam as mãos sobre o rosto para se esconderem dos flashes. Mantega cochichou aos companheiros: "Isso vai dar samba, isso vai dar samba...". Enquanto isto, empolgada, Dilma lentamente fez um semicírculo no ar e passou às mãos do presidente o objeto brilhante. A seguir, o homem que, no linguajar do povo acabaria "virando cinema", deu a canetada final. Urbi et Orbi, sem volta! ­­ proclamou. Em suas casas, frente aos televisores, os aposentados de todo o país tomaram suas calculadoras e multiplicaram o valor de suas aposentadorias por nove. Velhinhos e velhinhas passaram a dançar, alguns desmaiavam e outros se puseram a chorar porque agora não faltaria mais dinheiro para a compra de remédios ao fim de cada mês. "Os idosos do samba", como previu Mantega, logo compuseram uma marchinha para o Carnaval seguinte, cantando em coro: Lula-la-ou, la-la-ou, la-la-ou / Dilma já ganhou, lu-la-ou, lu-la-ou / bis e bis... CONRADO AMSTALDEN é cronista, autor do livro O Dedo do Diabo ­­ Reino-editorial/2009, engenheiro civil e residente em Vinhedo/SP, Jornal de Piracicaba.

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