Dois mil e vinte e nove.
Dois dentre tantos brasileiros resolvem queimar as sobras dos rendimentos de suas aposentadorias pagas pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Compram seus bilhetes, classe executiva, no que se tornou a moda turística do ano: mandar brasileiros para o espaço no ônibus desenvolvido pela Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A.), obviamente. Uma belíssima espaçonave com carcaça toda transparente para permitir aos passageiros observarem a imensidão do cosmos. Ao se sentarem em poltronas giratórias e individuais, lado a lado, os dois brasileiros acabam por se conhecer. Companheiro... seu nome? José Raymundo, e ocê? Ôpa... xará companheiro, José dos Prazeres! Prazer! Prazer! Quantos anos ocê têm, Raymundo? 98, e ocê? Bem mais novo... bem mais novo... só 96! Êta viagem que deve sê linda! Não sabia onde gastar as sobras da aposentadoria. Pô, eu também. Pois é, graças ao Lula! Ô, se é graças ao Lula, aquele que foi o homem da multiplicação, lembra? Ô, se me lembro! Raymundo e Prazeres finalmente iam para o espaço como conseqüência de mais uma dentre as tantas gafes verbais cometidas por Lula quando, no último ano de seu mandato, pensando, maquinando mais uma "cirurgia" para a candidata Dilma, resolveu garantir os votos dos aposentados. Convocou a imprensa no palácio para uma audiência na qual assinaria importante decreto. Apresentou-se com todos os ministros a sua esquerda, exceto Dilma, separada dos demais e postada estrategicamente a sua direita. A mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) se portou o tempo todo com o braço levantado, segurando entre o indicador e o polegar uma reluzente caneta preparada para o desenlace. "Minha consciência não permite passar o governo para quem quer que seja a futura presidente disse olhando para Dilma sem antes pagar uma dívida que tenho para com os aposentados deste imenso Brasil; não poderia sair sem lhes aumentar a aposentadoria tantas vezes quanto possível e o faço com a aprovação total de meus ministros que aqui se encontram". Um repórter esperto logo interferiu: presidente Lula, quantas vezes? Como Lula havia imaginado 9%, levou as duas mãos para o alto. Zum-zum geral no salão. Os ministros da área econômica, a um passo atrás de Lula, colocavam as mãos sobre o rosto para se esconderem dos flashes. Mantega cochichou aos companheiros: "Isso vai dar samba, isso vai dar samba...". Enquanto isto, empolgada, Dilma lentamente fez um semicírculo no ar e passou às mãos do presidente o objeto brilhante. A seguir, o homem que, no linguajar do povo acabaria "virando cinema", deu a canetada final. Urbi et Orbi, sem volta! proclamou. Em suas casas, frente aos televisores, os aposentados de todo o país tomaram suas calculadoras e multiplicaram o valor de suas aposentadorias por nove. Velhinhos e velhinhas passaram a dançar, alguns desmaiavam e outros se puseram a chorar porque agora não faltaria mais dinheiro para a compra de remédios ao fim de cada mês. "Os idosos do samba", como previu Mantega, logo compuseram uma marchinha para o Carnaval seguinte, cantando em coro: Lula-la-ou, la-la-ou, la-la-ou / Dilma já ganhou, lu-la-ou, lu-la-ou / bis e bis... CONRADO AMSTALDEN é cronista, autor do livro O Dedo do Diabo Reino-editorial/2009, engenheiro civil e residente em Vinhedo/SP, Jornal de Piracicaba.
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